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" ... Contrariamente ao que se diz,
Alexandre sabia calar-se e render-se à sabedoria dos homens de
valor.
Disso deu provas nos seus primeiros contatos com a Ásia,
ao ouvir pacientemente o discurso de um embaixador cita; um
grego não ousaria dizer à sua frente metade do que foi dito
sem correr o risco de morrer.
Eis o discurso:
Se a ti os deuses
tivessem dado um corpo proporcional às tuas ambições, o
universo seria pequeno para ti; com uma das mãos tocarias o
Oriente e com a outra o Ocidente, e não contente ainda
seguirias o Sol para saber onde se deita.
Tua ambição é
maior do que tu. Quando tiveres subjugado todos os homens,
farás guerra aos rios, às florestas e às feras.
Porventura ignoras
que grandes árvores custam a crescer e que em uma hora podes
abatê-las? O insensato cobiça-lhes os frutos sem considerar a
altura.
Atenta pois para não caíres em meio aos galhos em que
te enredares.
O leão às vezes serve de pasto às aves pequenas
e a ferrugem corrói o ferro.
Nada existe que seja tão forte
que não possa ser destruído por um conjunto de coisas mais
fracas.
Que temos a discutir contigo? Nunca pusemos os pés em
tuas terras.
Por que negas aos que aqui vivem o direito de
ignorar a tua presença e o que és? Não queremos obedecer nem
mandar em ninguém, e para que saibas que espécie de gente
somos, queremos dizer-te que dos deuses recebemos como dádivas
preciosas uma junta de bois, um arado, uma flecha, um dardo e
uma taça. Estes são os nossos instrumentos de paz e de guerra.
Com os amigos
partilhamos o trigo obtido com o trabalho dos bois e na mesma
taça oferecemos vinho aos deuses.
Quanto aos inimigos, a flecha
os abate de longe e o dardo de perto.
Tu te vanglorias de que
vieste em nome da justiça para exterminar os ladrões; és o
maior ladrão da terra.
Saqueaste e dizimaste as terras sob teu
jugo e ainda vens roubar nosso rebanho.
Em tuas mãos já não
cabem mais presas. Que pretendes fazer de tantas riquezas que
somente aumentam tua sede? Na abundância tiveste como
companheira a solidão.
Para ti a vitória é semente de novas
guerras.
Nenhum povo se submete ao jugo de um príncipe
estrangeiro. Prossegue no mau caminho que tomaste e sentirás a
vastidão de nossas planícies; Podes perseguir os citas, duvido
que os alcances.
Nossa pobreza nos faz leves e ágeis, enquanto
tu terás que carregar o pesado fardo dos despojos das terras
que pilhaste e quando pensares que estamos longe, hás-de
ver-nos sempre a teus calcanhares, pois com a mesma rapidez com
que fugimos de nossos inimigos, os perseguimos.
Crê, a fortuna
é escorregadia; cuida bem para que não te escape, e difícil
será retê-la se ela quiser abandonar-te; põe-lhe um freio
antes que ela te seja adversa.
Finalmente, se és deus, como o
dizes, apiedate dos mortais.
Mas se és um homem, pensa sempre
que no que és, pois é vão alimentar pensamentos que nos
afastem de nós mesmos.
Deixa-nos em paz e seremos bons amigos,
pois as mais sólidas amizades se fazem entre iguais e não te
iludas em ser amado pelos vencidos; entre o senhor e o escravo
não pode crescer o fruto da amizade.
Fica ciente ainda que para
selar nossa aliança não precisamos nem de juramentos nem do
testemunho dos deuses; pois aquele que não cumpre sua palavra
de homem não tem escrúpulo em enganar os deuses.
Podes então
escolher: ter-nos como amigos ou como inimigos.
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